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O familiar, o cuidador e o idoso

A descoberta de que um parente idoso tornou-se uma pessoa problema é algo difícil e inusitado. As reações dos familiares são as mais variadas. Algumas famílias negam a realidade, mantendo a atitude e preservando condições anteriores à doença. Matém o idoso morando sozinho, dirigindo veículos, com as mesmas responsabilidades domésticas, financeiras e sociais, o que pode ocasionar toda sorte de problemas. Existem pessoas que ficam surpresas, assustadas e se retiram de cena, com as mais diferentes desculpas, evitando o assunto e o contato com o idoso,  preferindo deixá-lo na companhia de outros nem sempre qualificados para a tarefa. Temos famílias, cientes do novo momento, que se organizam e se revezam nos cuidados, procurando resolver os problemas que surgem, inclusive com ajuda de profissionais qualificados. E tem aquelas famílias, em que alguém mais disponível, ou mais sensibilizado com os problemas do parente ou amigo, costuma chamar a si a responsabilidade para com este idoso, não raras vezes, abdicando de sua vida pessoal. É deste último, o parente cuidador, de quem pretendo falar aqui.

Na maioria das vezes, o movimento de se responsabilizar é uma opção amorosa, inconsequente, porque não se sabe ao entrar neste caminho o preço a ser pago até o final do processo. Mas muitas vezes, ele é o que “sobrou”, quando os demais se retiraram de cena, não assumiram a responsabilidade com o parente por medo, por impossibilidades, por falta de entendimento e compreensão do quadro, por falta de tempo, enfim, por dificuldades variadas.

Essa pessoa, segundo nossa experiência, corre o risco de, no processo de cuidar do outro, também ficar doente, desequilibrar-se ao tentar, sem o apoio de terceiros, dar conta de algo que nenhum ser humano daria sozinho. A solidão do cuidar adoece a relação de cuidador e idoso. O cuidador passa a impor os cuidados e fica refém de seus valores sobre o cuidar e o estar bem. É curioso notar como esta pessoa se torna um especialista em saúde. Sabe discutir, informar, atuar em situações que exijam atendimento médico ou presença de enfermeiros, mesmo nunca tendo estudado anteriormente.

Assim, ela se torna, aos poucos, meio “herói,” pé-de-boi para os profissionais de saúde, e, para os outros familiares, passa a impressão de que podem se sentir seguros com sua atuação de presteza e eficiência. Torna os demais familiares dispensados ao serviço. Não são necessários. Este cuidador, aos poucos, sente que nenhuma outra pessoa conseguirá tratar seu idoso como ele o trata, em sua atitude onipotente e perfeccionista. Passa a não aceitar ajuda de estranhos, e ainda vê pouca qualidade nos cuidados dos parentes próximos que ousam tentar participar do processo.

Realmente, a pessoa cuidada estará sempre arrumada, remédios à hora, tudo impecável e perfeito. Mas fica no ar a impressão de nem tudo vai bem.  Fica uma insatisfação. Um débito impagável pelo grupo familiar. É que o cuidador tende a se esquecer de suas próprias necessidades básicas, em razão do sentimento de onipotência, do orgulho de dar conta da situação sem ajuda. Há caso em que ficam comprometidos a alimentação, o sono, a saúde, a vida sexual e afetiva e até a vida social, que fica completamente de lado, em função deste novo momento. Se iludem de que esta situação será passageira. Não estão preparados para o idoso viver 20 ou 30 anos no processo de dependência de cuidado. A ligação entre cuidador e cuidado se estreita a tal ponto, que o cuidador vive as situações como se fosse o idoso, projetando sentimentos, desejos e pensamentos. Ele fala pela pessoa cuidada, principalmente quando existem problemas de comunicação.

Caso este cuidador que “sobrou” no momento atual é o mesmo que “sobrou” no passado, devemos dar a ele uma especial atenção. Como ele pode ter sido desqualificado, desprezado, não valorizado em sua necessidade pelos pais, irmãos ou demais membros da família no passado, agora pode ver uma oportunidade de mostrar-se abnegado, para ser importante. Ele, então, se apega a sua nova importância dentro do grupo familiar, esquecendo-se de seus próprios sonhos, da manifestação de seus talentos profissionais, para viver apenas em função de seu relativo sucesso.

Ainda assim seus ressentimentos podem aflorar e dar origem a um comportamento perverso, que se manifesta em crueldade mental na intimidade, caso não sejam devidamente elaborados e transformados na possibilidade de uma real relação amorosa. Justifica-se aqui, um suporte terapêutico para evitar que se torne em um sério problema psicológico no futuro.

Este quadro está sendo pintado com nuances doentias que podem ou não se manifestar no processo, justamente para que possamos refletir, pensar um pouco quando reforçamos, estimulamos ou exigimos que alguém da família se torne este ser adoecido, responsável direto pelo cuidado ao idoso. Porque a verdade é que este familiar necessita ser cuidado, olhado e observado. Talvez esta seja a sua última oportunidade de elaboração de suas carências e de descoberta do seu lugar no núcleo familiar.

É responsabilidade de todos nós, profissionais e familiares, intervir para que o nosso cuidador se reorganize, aceitando a colaboração dos parentes ou de outras pessoas habilitadas, e possa ter sua saúde física, emocional e social preservadas. Só assim vamos crescer com a situação do envelhecimento, hoje comum a todos nós.

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Maria Cândida Santos Silva
Psicóloga e fundadora da Maioridade

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