SIGA:
Busca:

respeito

RELATO DE EXPERIÊNCIA

Todos nós, que convivemos diariamente com familiares e idosos temos nossas histórias para contar e transmitir.
A experiência em acolher essas pessoas em momentos dificéis, onde as soluções parecem tão distantes, promove um sentimento de real satisfação profissional e até mesmo pessoal. Afinal, não acolhemos somente a doença ou a dificuldade, interagimos com os mais variados sentimentos e emoções, e também compartilhamos do passado das histórias, do presente dos relatos e de uma expectativa de futuro.
A vida é algo magnífico e o ser humano consegue transformar, em alguns momentos, a dor em alegria, modificando suas experiências e possibilitando sensações novas que podem modificar a nossa relação com todos que nos envolvem.

É possivel ver beleza onde para muitos há somente a dor? Será que podemos viver melhor nosso dia a dia, mesmo com tantas dúvidas sobre a nossa própria existência?

Essa semana, infelizmente não me recordo a fonte para dar os devidos créditos, encontrei uma história que não me sai da memória, por isso compartilho com vocês.

Em um post de uma rede social, li a história de uma filha que o pai recebera o diagnóstico de uma demência, provavelmente compatível com a Demência de Alzheimer (D.A). Uma realidade vivenciada por várias pessoas em todo mundo e que exercem influência em grande parte da sociedade, devido principalmente seus efeitos sintomáticos e sua repercusão diante todos os membros de uma família.

Consiguimos imaginar várias situações que podem surgir no cotidiano de um idoso com um diagnostico de D.A: alteração de memória, dificuldade nas atividades da vida diária, mudanças de comportamento, passando por agitação, agressividade, confusão mental, desorientação e/ou desorganização, dentre outros tantos sintomas.

Mas, diferente de outras tantos relatos reais, o que me chamou mais atenção foi a seguinte frase:

“Meu pai tem um diagnóstico de demência, e todos os dias ele repete as mesmas coisas. Todos os dias ele me pergunta meu nome, e em que dia estamos. A resposta é sempre a mesma, me apresento com seu filho e digo que hoje é dia dos pais, daí dou um abraço bem apertado nele em comemoração ao seu dia.”

Essa experiência tem uma valor imensurável e de difícil tradução. Imagino o que podemos aprender com um relato deste, nos colocando tanto no lugar da filha, quando no lugar do idoso. A doença ainda não tem cura, mas podemos suportar as mais diversas dificuldades, simplesmente olhando para elas e transformando o seus significados.

Nesta situação, se me colocasse no lugar da filha, saberia que respeito os limites e as dificuldades de meu velho pai, deixando ele no seu lugar de pai. Não deixaria levar pela repetição e o convidaria a todos os dia ter um dia de especial, de amor, carinho, respeito. Se da mesma forma, estivesse eu no papel do pai, olharia com carinho para minha filha e agradeceria, de forma emocionada, o afeto sincero que me despojara e que sem dúvida nenhuma,teria eu a melhor filha do mundo. Não por ela se importar comigo, mas pelo fato de entender que o tempo passa para todos e envelhecer pode ser também uma experiência transformadora.

Essa historia poderia ser a de muitos de nós que convivêmos com pessoas idosas. Pode ser você com seu pai, sua mãe, seus avôs, quem sabe seus vizinhos, o moço da banca ou da padaria, aquele idoso que você vê na fila do banco antes mesmo dele abrir ou aquele senhor que cedo entra no ônibus de seu bairro. Pode ser qualquer um de nós. Ser idoso no Brasil ainda é um desafio de todos e mudamos essa realidade não somente mudando as leis, mas, primeiramente devemos mudar a nossa consciência sobre o que queremos para nós e nossos idosos.

Quando tiver 80 anos e ler novamente esse texto, gostaria de ter a consciência que nossa realidade se transformou em um futuro certo e nao mais incerto. Terei muito orgulho de falar a todos aos meus redor, sou um idoso, tenho 80 anos e me orgulho de viver ao seu lado,e se por algum motivo, não tiver a compreensão ou esquecer quais seria minhas palavras, gostaria de agradecer ao respeito as minhas dificuldades.

A realidade em cada situação é única e cada familia conta com seu modo de atuação. Sabemos que um conto é um recorde, mas podemos acreditar que para fazer a diferença em uma vida, basta termos em mente que é possível acreditar em um futuro melhor.

Rafael Dias
Psicólogo

Comentários